Você já escreveu uma mensagem, apagou, reescreveu e releu várias vezes antes de finalmente apertar “Enviar”?
Para algumas pessoas, isso acontece praticamente toda vez e um simples “Até amanhã” pode se transformar em um parágrafo cuidadosamente elaborado depois de várias tentativas.
Embora esse hábito possa estar relacionado a uma tendência a pensar demais, ele também pode revelar empatia e atenção à forma como nos comunicamos. Afinal, algumas pessoas enviam mensagens quase instantaneamente, enquanto outras preferem refletir antes de falar ou escrever.
Esse comportamento reflete a maneira como o cérebro avalia situações sociais, antecipa as reações dos outros e tenta evitar mal-entendidos.
Pesquisas na área da psicologia da comunicação mostram que as pessoas diferem na forma como monitoram o que dizem antes de se expressar.
O hábito pode se tornar estressante quando leva à ruminação excessiva. Mas, quando ocorre com moderação, reescrever uma mensagem também pode ser uma forma de pensar com mais cuidado sobre o que dizer e como isso será recebido.
Uma das explicações mais importantes vem da teoria da automonitorização, desenvolvida pelo psicólogo Mark Snyder.
A automonitorização diz respeito à tendência de uma pessoa de adaptar seu comportamento de acordo com a situação social em que se encontra.
Pessoas com um nível elevado de automonitorização costumam pensar cuidadosamente sobre como suas palavras serão interpretadas. Por exemplo, antes de enviar um e-mail profissional, alguém pode substituir uma formulação informal por um vocabulário mais profissional para transmitir uma impressão positiva.
Isso não significa necessariamente desempenhar um papel ou fingir ser outra pessoa: pode simplesmente refletir uma boa consciência dos códigos sociais.
Outra explicação importante é a teoria da gestão da impressão, desenvolvida pelo sociólogo Erving Goffman. Segundo essa teoria, os indivíduos naturalmente procuram se apresentar de uma maneira adequada às diferentes situações sociais.
Imagine que você esteja enviando uma mensagem para seu chefe, um amigo próximo e um avô. A maioria das pessoas adota espontaneamente uma linguagem diferente com cada um deles.
Alguém que reescreve suas mensagens com frequência pode simplesmente estar tentando garantir que seu tom pareça respeitoso, amigável ou profissional, dependendo de quem está do outro lado da conversa.
Os psicólogos descrevem a ruminação como o ato de pensar repetidamente sobre uma situação sem conseguir chegar a uma conclusão satisfatória. Quando se trata de mensagens, isso pode se traduzir em pensamentos como:
- “Será que isso vai parecer grosseiro?”
- “Será que eu deveria acrescentar um emoji?”
- “E se ele ou ela me interpretar mal?”
Em vez de se sentir mais tranquila depois de uma primeira releitura, a pessoa pode continuar modificando a mensagem, porque cada nova versão faz surgir outra pergunta. As pesquisas sugerem que esse processo pode aumentar a fadiga decisória, em vez de realmente melhorar a comunicação.
Pesquisas sobre ansiedade social mostram que algumas pessoas se preocupam mais do que outras com o olhar e o julgamento alheios.
Mesmo quando sabem que a conversa é informal, elas podem dedicar mais tempo à escolha das palavras para reduzir o risco de se sentirem constrangidas ou envergonhadas.
Por exemplo, alguém pode reescrever várias vezes uma mensagem antes de fazer uma pergunta bastante simples, por medo de parecer desajeitado. Esse comportamento pode se manifestar em diferentes graus e não significa necessariamente que a pessoa tenha um transtorno de ansiedade.
Nem todas as mensagens reescritas são motivadas pela preocupação. Pessoas com alta inteligência emocional, conceito popularizado especialmente pelo psicólogo Daniel Goleman, costumam pensar sobre como suas palavras podem afetar as emoções dos outros.
Por exemplo, em vez de escrever “Você está errado”, elas podem reformular o pensamento desta maneira: “Entendo seu ponto de vista, mas esta é outra perspectiva”. Nesse caso, o objetivo é se comunicar com clareza e, ao mesmo tempo, preservar o relacionamento.
Segundo pesquisas sobre prospecção, o cérebro imagina constantemente diferentes cenários futuros antes de tomar uma decisão. Antes de apertar “Enviar”, uma pessoa pode, assim, antecipar mentalmente várias reações:
- “Eles vão rir?”
- “Eles vão me interpretar mal?”
- “Isso pode criar um conflito?”
- “Vou me arrepender de ter enviado?”
Essas simulações mentais ajudam a entender por que algumas pessoas releem e modificam suas mensagens várias vezes antes de escolher a versão definitiva.
Ao contrário das conversas presenciais, as mensagens escritas não permitem perceber as expressões faciais, o tom de voz ou a linguagem corporal.
Pesquisadores da comunicação ressaltam que essa ausência de sinais pode levar algumas pessoas a formular suas mensagens com mais cautela.
Por exemplo, uma resposta curta como “Tudo bem.” pode parecer perfeitamente neutra para uma pessoa, mas soar fria ou irritada para outra. A reescrita se torna, então, uma maneira de reduzir a ambiguidade e diminuir o risco de que a mensagem seja interpretada de forma equivocada.